quarta-feira, 30 de maio de 2007

Carta do Cacique Seatle (1854)

Em 1854, o presidente dos Estados Unidos propôs comprar uma grande área de terra dos índios peles-vermelhas, prometendo uma reserva para que nela eles pudessem viver. A resposta do Cacique Seattle é tida como uma profunda declaração de amor ao Meio Ambiente, brotada do coração puro e simples de um índio cheio de reconhecimento à Natureza por tudo de bom que ela dá ao homem.
Você, que se interessa pelo estudo da Ecologia, e quer que a vida sobre a terra seja mantida, precisa conhecer a carta que o velho cacique, cheio de sabedoria, mandou ao presidente de seu país:
“Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Não conseguimos compreender esta idéia.se o frescor do ar e a limpidez brilhante da água não nos pertencem, como podemos vendê-los?
Cada pedaço desta terra é sagrado para nossa gente. Cada ponta brilhante de um pinheiro, toda praia de areia, cada névoa nos bosques ao escurecer, cada lugar claro, sem árvores, no meio da floresta e cada inseto zumbindo são sagrados na memória de nossa gente. O córrego, que procura seu caminho entre as árvores, carrega consigo lembranças de nossos antepassados.
Os mortos dos homens brancos, quando vão caminhar entre as estrelas, esquecem a região de seu nascimento. Nossos mortos nunca esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe dos índios peles-vermelhas. Somos partes da terra e ela faz parte de nós. As flores, que exalam perfume, são nossas irmãs. Os veados, os cavalos, a águia grande, todos são nossos irmãos. As pontas das rochas, os sulcos nos valos, o calor do corpo do cavalo, o homem, todos pertencem à mesma família.
O grande chefe branco manda dizer que quer comprar nossas terras, o que é um pedido grande demais feito a nós. Também que vai reservar um lugar para nós onde possamos de modo confortável. Também que vai ser nosso pai e nós vamos ser seus filhos, mas isto não vai ser fácil, pois esta terra é sagrada para nós.
Esta água limpa correndo em curvas nos córregos e rios não é simplesmente água, mas o sangue de nossos antepassados Se vendermos a terra ao homem branco, ele vai ter de lembrar-se e vai ter de ensinar às suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo fingindo figuras de rostos na água pura do lago fala de acontecimentos e memórias da vida de nosso povo. O murmúrio da água é a voz de nosso pai.
Os rios são nossos irmãos e matam nossa sede. Transportam nossas canoas e alimentam as nossas crianças. Se vendermos nossa terra ao homem branco, esta vai ter de ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos. E o homem branco vai ter de dedicar aos rios a mesma bondade que dedicaria a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nosso modo de ser. Uma porção da terra, para ele, representa o mesmo que outra porção, pois ele é aqui um estrangeiro que vem à noite e tira da terra o de que precisa. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga e, quando a conquista, simplesmente segue em frente, sem se importar, deixando as sepulturas de seus pais para trás. Não pensa duas vezes e rouba da terra o que seria de seus filhos. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata a sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, roubadas, vendidas como colares coloridos. Seu apetite vai terminar por devorara terra, deixando somente um deserto.
Nossos costumes são diferentes e, por isso, não compreendo. A visão de suas cidades é dolorosa para os olhos do homem de pele-vermelha. Talvez isto aconteça pelo fato de ser o homem de pele-vermelha um selvagem. Não compreendo.
Não acontece um canto silencioso nas cidades do homem branco. Não existe nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de flores na primavera, ou o harmonioso bater das asas de um inseto. Por ser um selvagem, não compreendo isto.
O ruído somente parece um insulto aos ouvidos. E o que resta da vida se um homem não puder ouvir o grito solitário do pássaro ou a algazarra dos sapos à noite ao redor de uma lagoa? Sou um homem de pele-vermelha e não compreendo isto. O índio prefere o murmúrio suave do vento correndo na superfície do lago e o aroma do próprio vento, limpo por uma chuva de meio-dia ou perfumado pelos pinheiros. O ar é precioso para o homem de pele-vermelha, pois todas as coisas fazem parte do mesmo sopro. Parece que o homem branco não presta atenção no ar que respira. Como um homem em agonia, depois de muitos dias, é insensível ao mau cheiro. Mas, se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar-se de que o ar nos é precioso, que afeta com seu espírito todo ser vivente que sustenta. O vento que deu aos nossos antepassados seu primeiro respirar é o mesmo que recebe seu último suspiro. E, se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve mantê-la como é e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir deliciar-se com o vento açucarado pelas flores dos campos.
Portanto, vamos pensar em sua proposta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, vamos impor uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Talvez seja pelo fato de eu ser um selvagem que não compreendo qualquer outra forma de agir. Vi mais de mil búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os matou de um trem em movimento. Sou um selvagem. Deve ser por isto que não compreendo como é que o cavalo-de-ferro soltando fumaça possa ser mais importante que o búfalo, que só matamos para que possamos permanecer vivos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito, pois o que quer que ocorra aos animais, breve vai acontecer também ao homem. Existe uma ligação em tudo.
O homem branco deve ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, devem ensinar a seus filhos que a terra foi enriquecida com as vidas de nossos antepassados, que ela é nossa mãe. Tudo aquilo que acontecer a terra, acontecerá também aos filhos dela. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo neles mesmos.
Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem, sim, é que pertence à terra. Sabemos que todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Existe uma ligação em tudo.
O que vier a acontecer com a terra recairá sobre os filhos da terra. Não foi o homem que fez o tecido da vida. Ele é simplesmente um de seus fios. O que quer que faça ao tecido, estará fazendo a si mesmo.
Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar livre do destino comum. Afinal, é possível que sejamos irmãos. Veremos. Uma coisa sabemos, que o homem branco poderá vir a descobrir um dia que nosso Deus é o mesmo Deus. Poderá pensar que possui Deus, como deseja possuir nossa terra, mas isto não é possível. Ele é o Deus do homem e Sua compaixão é igual para o homem de pele-vermelha e para o homem branco. A terra é preciosa para Deus e ofender a terra é desprezar seu Criador. Os homens brancos também passarão, talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminam suas camas e uma noite serão sufocados pelos seus próprios desejos.Mas, quando da desaparição do homem branco, ele brilhará intensamente iluminado pela força do Deus que o trouxe a esta terra e, por alguma razão especial, deu a ele domínio sobre a terra e sobre o homem de pele-vermelha. Tal destino é um mistério para nós, pois não compreendemos a razão de todos os búfalos serem mortos, os cavalos selvagens serem todos domados, os recantos secretos da floresta ficarem cheios do cheiro de muitos homens e a vista dos morros fecundos ficar tapada por fios que falam. Onde está o arvoredo? Onde está a águia? Desapareceram. É o final da vida e o principio da sobrevivência”.

O Homem Perante A Natureza (Blaise Pascal)

A primeira coisa que se oferece ao homem ao contemplar-se a si próprio,
é seu corpo, isto é, certa parcela de matéria que lhe é peculiar. Mas, para
compreender o que ela representa a fixá-la dentro de seus justos limites,
precisa compará-la a tudo o que se encontra acima ou abaixo dela. Não se
atenha, pois, a olhar para os objetos que o cercam, simplesmente, mas
contemple a natureza inteira na sua alta e plena majestosidade. Considere esta
brilhante luz colocada acima dele como uma lâmpada eterna para iluminar o
universo, e que a Terra lhe apareça como um ponto na órbita ampla deste astro
e maravilhe-se de ver que essa amplitude não passa de um ponto insignificante
na rota dos outros astros que se espalham pelo firmamento. E se nossa vista aí
se detém, que nossa imaginação não pare; mais rapidamente se cansará ela de
conceber, que a natureza de revelar . Todo esse mundo visível é apenas um
traço perceptível na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado a
conhecer de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concepções e
as projetemos além de espaços imagináveis, concebemos tão somente átomos
em comparação com a realidade das coisas.
Esta é uma esfera cujo centro se encontra em toda parte e cuja
circunferência não se acha em alguma. E o fato de nossa imaginação perder-se
neste pensamento constitui, em suma, a maior manifestação da onipotência de
Deus.
Que o homem, voltado para si próprio, considere o que ele é diante do que
existe; que se encare como um ser extraviado neste pequeno setor da natureza,
e que da pequena cela onde se acha preso, do universo, aprenda a avaliar em
seu valor exato a terra, os reinos, as cidades e ele próprio. Que é um homem
diante do infinito?
Quero, porém, apresentar-lhe outro prodígio igualmente assombroso,
colhido nas coisas mais delicadas que conhece. Eis uma lêndea, que na
pequenez de seu corpo contém partes incomparavelmente menores, pernas
com articulações, veias nessas pernas, sangue nessas veias, humores neste
sangue, gotas nesses humores, vapores nestas gotas; dividindo-se essas
últimas coisas esgotar-se-ão suas capacidades de concepção, do homem, e
estaremos portanto ante o último objeto a que pode chegar nosso discurso.
Talvez imagine, então, seja essa a menor coisa da natureza. Quero mostrarlhe,
porém, dentro dela um novo abismo. Quero pintar-lhe não somente o
universo visível mas também a imensidade concebível da natureza dentro
desta parcela de átomo. Aí existe uma infinidade de universos, cada qual com
o seu firmamento, seus planetas, sua terra em iguais proporções às do mundo
visível; e nessa terra há animais e neles essas lendêas onde voltará a encontrar
o que nas primeiras observou. Deparará assim, por toda parte, sem cessar,
infindavelmente, com a mesma coisa, e perder-se-á nessas maravilhas tão
assombrosas na sua pequenez quanto às outras na sua magnitude. Pois como
não se admirar de que nosso corpo, antes imperceptível no universo,
imperceptível no todo, se torne um colosso, um mundo, ou melhor, um todo
em relação ao nada a que se pode chegar?
Quem assim raciocinar há de apavorar-se de si próprio e, considerandose
suspenso entre esses dois abismos do infinito e do nada, tremerá à vista de
tantas maravilhas; e creio que, transformando sua curiosidade em admiração,
preferirá contemplá-las em silêncio a investigá-las com presunção.
Afinal que é o homem dentro da natureza? Nada, em relação ao infinito;
tudo, em relação ao nada; um ponto intermediário entre o tudo e o nada.
Infinitamente incapaz de compreender os extremos, tanto o fim das coisas
quanto o seu princípio permanecem ocultos num segredo impenetrável, e é-lhe
igualmente impossível ver o nada de onde saiu e o infinito que o envolve.
Que poderá fazer, portanto, senão perceber alguma aparência das coisas
num eterno desespero e não poder conhecer nem seu princípio nem seu fim?
Todas as coisas saíram do nada e são levadas para o infinito – que haverá além
desses assombrosos limites? O autor das maravilhas o sabe; ninguém mais.
Por não haver meditado sobre esses infinitos, puseram-se os homens
temerariamente a investigar a natureza, como se tivessem alguma proporção
com ela. E é estranho que tenham querido compreender os princípios das
coisas, e assim chegar ao conhecimento do todo através de uma presunção tão
infinita quanto o seu objeto. Pois não há dúvida de que é impossível conceber
tal desígnio sem presunção ou sem a capacidade infinita da natureza.
Quando se estuda, compreende-se que tendo a natureza gravado sua
imagem e a de seu autor em todas as coisas, todas participam de seu duplo
infinito. Todas as ciências são infinitas na amplitude de suas investigações,
pois quem duvidará, por exemplo, de que a geometria tenha uma infinidade de
teoremas a serem expostos? São infinitas também na multidão e na delicadeza
de seus princípios, pois quem não percebe que aqueles que se consideram
últimos não se sustentam sozinhos, mas se apóiam em outros, os quais, tendo
por sua vez outros por apoio, nunca são os últimos? Nós, porém,
consideramos últimos aqueles princípios que a razão nos aponta como
últimos, tal qual fazemos com as coisas materiais, em que, para nós, um ponto
invisível é aquele que, por se achar mais longe de nossos sentidos, não pode
ser percebido, embora continue divisível indefinidamente por sua própria
natureza.
Desses dois infinitos da ciência, o infinitamente grande é o mais sensível;
por isso nós o conhecemos imediatamente por inteiro. "Vou falar de tudo",
dizia Demócrito.
Porém, o infinitamente pequeno é muito pouco visível. A ele pretenderam
chegar os filósofos, entretanto; e nisso é que tropeçaram todos. Isso é que deu
azo a títulos tão freqüentes quanto estes: Do princípio das coisas, do princípio
da filosofia e quejandos, tão pretensiosos e de efeito bem maior, embora não o
pareça, do que esse outro que entra pelos olhos: De omni scibili.
Acreditamos muito naturalmente sermos mais capazes de alcançar o centro
das coisas do que de abraçar-lhes a circunferência; a extensão visível do
mundo ultrapassa-nos manifestamente; porém, como ultrapassamos as coisas
pequenas, acreditamo-nos mais capazes de possuí-las; entretanto, não nos falta
menos capacidade para chegar ao nada do que chegar ao todo; para um, como
para outro, falta-nos uma capacidade infinita, e creio que quem tivesse
compreendido os princípios últimos das coisas chegaria também a conhecer o
infinito. Uma coisa depende da outra, e uma conduz à outra. Esses extremos se
tocam, e se unem, à força de se afastarem, encontrando-se em Deus, e somente
em Deus.
Conheçamos, pois, nossas forças; somos algo e não tudo; o que temos que
ser priva-nos do conhecimento dos primeiros princípios que nascem do nada;
e o pouco que somos nos impede a visão do infinito.
Nossa inteligência, entre as coisas inteligíveis, ocupa o mesmo lugar que
o nosso corpo na magnitude da natureza.
Limitados em tudo, esse termo médio entre dois extremos encontra-se em
todas as nossas forças. Nossos sentidos não percebem os extremos: um ruído
demasiado forte nos ensurdece, demasiada luz nos deslumbra, demasiada
distância ou demasiada proximidade impede-nos de ver, demasiada longitude
ou demasiada concisão do discurso o obscurece, demasiada verdade nos
assombrosa (sei de alguém que não pode compreender que quem de zero tira
quatro fica zero); os primeiros princípios tem demasiada evidência para nós
outros, demasiado prazer incomoda, demasiada consonância aborrece na
música, e demasiado benefício irrita, pois queremos ter com que pagar a
dívida: Beneficia eo usque laeta sunt dum videntur exsolvi posse; ubi multum
ante venere, pro gratia odium redditur. (Os benefícios são agradáveis enquanto
pensamos poder devolvê-los; além o reconhecimento se transforma em ódio. -
Tácito, citado por Montaigne, XXX, 8). Não sentimos nem o extremo calor
nem o frio extremo; as qualidades excessivas são nossas inimigas, não as
sentimos, sofremo-las. Demasiada juventude ou demasiada velhice tolhe o
espírito; assim como demasiada ou insuficiente instrução. Em suma, as coisas
extremas são para nós como se não existissem, não estamos dentro de suas
proporções: escapam-nos ou lhes escapamos.
Eis o nosso estado verdadeiro; é o que nos torna incapazes de saber com
segurança e de ignorar totalmente. Nadamos num meio termo vasto, sempre
incertos e flutuantes, empurrados de um lado para o outro. Qualquer objeto a
que pensemos apegar-nos vacila e nos abandona, e se o perseguirmos foge à
perseguição. Escorrega-nos entre as mãos numa eterna fuga. Nada se detém
por nós. É o estado que nos é natural e, no entanto, nenhum será mais
contrário à nossa inclinação; ardemos de desejo por encontrar uma plataforma
firme e uma base última e permanente para sobre ela edificar uma torre que se
erga até o infinito; porém os alicerces ruem e a terra se abre até o abismo.
Não procuremos segurança e firmeza. Nossa razão é sempre iludida pela
inconstância das aparências e nada pode fixar o finito entre os dois infinitos
que o cercam e dele se afastam.
Creio que a concepção deste inevitável fará que o homem se conforme
com o estado em que a natureza o colocou e o mantenha tranqüilo. Esse termo
médio que nos coube por destino, situa-se sempre os dois extremos, de modo
que pouco nos importa tenha o homem maior ou menor inteligência das
coisas. Se a tiver as verá apenas de um pouco mais alto. Mas não se achará
sempre infinitamente afastado da meta, e a duração de nossa vida não o estará
também, infinitamente, afastada da eternidade, embora dure dez anos mais?
Se tivermos em mente estes infinitos, todos os finitos serão iguais; e não
vejo razão para assentar a imaginação em um deles e a preferência ao outro. A
simples comparação entre nós e o infinito nos acabrunha.
Se o homem procurasse conhecer a si mesmo antes de mais nada,
perceberia logo a que ponto é incapaz de alcançar outra coisa.
Como poderia uma parte conhecer o todo? Mas a parte pode ter, pelo
menos, a ambição de conhecer as partes, as quais cabem dentro de suas
próprias proporções. E como as partes do mundo têm sempre relações íntimas
e intimamente se encadeiam, considero impossível compreender ma sem
alcançar as outras, e sem penetrar o todo.
O homem, por exemplo, tem relações para durar, de movimento para
viver, de elementos que o constituam, de alimentos e calor que o nutram, de ar
para respirar; vê a luz, percebe os corpos; em suma, tudo se alia a ele próprio.
Para conhecer o homem, portanto, mister se faz saber de onde vem que precisa
de ar para subsistir; e para conhecer o ar é necessário compreender donde
provém essa sua relação com a vida do homem, etc. A chama não subsiste sem
o ar; o conhecimento de uma coisa, se liga, pois, ao conhecimento de outra. E
como todas as coisas são causadoras e causadas, auxiliadoras e auxiliadas,
mediatas e imediatas, e todas se acham presas por um vínculo natural e
insensível que une as mais afastadas e diferentes, parece-me impossível
conhecer as partes sem conhecer o todo, bem como conhecer o todo sem
entender particularmente as partes. (A eternidade das coisas, em si mesmas ou
em Deus, deve assombrar a nossa ínfima duração. A imobilidade fixa e
constante da natureza, em comparação com a transformação contínua que se
verifica em nós, deve causar o mesmo efeito). E o que completa a nossa
incapacidade de conhecer as coisas é o fato de serem simples em si enquanto
nós somos complexos de natureza antagônicas e de gêneros diversos, alma e
corpo. Pois é impossível que a parte raciocinante de nós mesmos não seja
unicamente espiritual; e se pretenderem que somos tão somente corporais,
mais afastarão ainda de nós o conhecimento das coisas, porquanto nada mais
será inconcebível do que a matéria conhecer-se a si própria; não podemos
conceber de que maneira se conheceria. Assim, se somos simplesmente
materiais nada podemos conhecer; e se somos compostos de espírito e
matérias não podemos conhecer perfeitamente as coisas simples, espirituais ou
corporais.
Donde a confusão generalizada entre os filósofos que misturam as idéias
das coisas, falando espiritualmente das coisas corporais e corporalmente das
coisas espirituais.
Dizem, ousadamente, que as coisas tendem a cair, que tendem para o
centro, que fogem à sua destruição, que temem o vácuo, que tem inclinações,
simpatias, antipatias, qualidades todas que somente ao espírito pertencem. E,
referindo-se ao espírito, consideram-no como se estivesse em determinado
espaço, e lhe atribuem a capacidade de movimentar-se, coisas que pertencem
apenas aos corpos. Em vez de recebermos a idéia pura das coisas, tingimo-la
com nossas qualidades e impregnamos de nosso ser composto todas as coisas
simples que contemplamos.
Que não há de supor, ao ver-nos juntar as coisas do espírito e do corpo,
que tal mescla nos é mui compreensível? No entanto, é essa a coisa que menos
se compreende. O homem é, em si mesmo, o objeto mais prodigioso da
natureza; pois não se pode conceber nem o que é corpo, nem, menos ainda, o
que é espírito, e, ainda menos, de que modo um corpo pode se unir a um
espírito. Essa a sua dificuldade máxima, e, não obstante, a sua própria
essência: Modus quo corporibus adhaerent spiritus comprehendi ab hominibus
non potest, et hoc tamem home est. (A maneira por que se acha o espírito
unido ao corpo não pode ser compreendida pelo home, e, não obstante, é o
homem. Santo Agostinho, citado por Montaigne).
Mas, para concluir a prova de nossa fraqueza, terminarei com estas duas
considerações.
Quando penso na pequena duração da minha vida, absorvida na
eternidade anterior, no pequeno espaço que ocupa, fundido na imensidade dos
espaços que ignora e que me ignoram, aterro-me e me assombro de ver-me
aqui e não alhures, pois não há razão alguma para que esteja aqui e não
alhures, agora e não em outro qualquer momento. Quem me colocou nessas
condições? Por ordem e obra e necessidade de quem me foram designados
esse lugar e esse momento?Memoria hospitis unius diei praetereuntis. (A
lembrança de hóspede de um dia que passa. Sabedoria, V, 15.
Ante a cegueira e a miséria do homem, diante do universo mudo, do
homem sem luz, abandonado a si mesmo e como que perdido nesse rincão do
universo, sem consciência de quem o colocou aí, nem do que veio fazer, nem
do que lhe acontecerá depois da morte, ante o homem incapaz de qualquer
conhecimento, invade-me o terror e sinto-me como alguém que levassem,
durante o sono, para uma ilha deserta, e espantosa, e aí despertasse ignorante
de seu paradeiro e impossibilitado de evadir-se. E maravilho-me de que não se
desespere alguém ante tão miserável estado. Vejo outras pessoas ao meu lado,
aparentemente iguais; pergunto-lhes se se acham mais instruídas que eu, e me
respondem pela negativa; no entanto, esses miseráveis extraviados se apegam
aos prazeres que encontram em torno de si. Quanto a mim, não consigo
afeiçoar-me a tais objetos e, considerando que no que vejo há mais aparência
do que outra coisa, procuro descobrir se Deus não deixou algum sinal próprio.
O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora.
Quantos reinos nos ignoram!
Por que são limitados meu conhecimento, minha estatura, a duração de
minha vida a cem anos e não a mil? Que motivos levaram a natureza a fazerme
assim, a escolher esse número em lugar de outro qualquer, desde que na
infinidade dos números não há razões para tal preferência, nem nada que seja
preferível a nada?

Ecologia Profunda (Arne Naess)










O Superficial E O Profundo: movimentos ecológicos de longo alcance - Um sumário (Arne Naess)
Originalmente publicado em Inquiry (Oslo), 16 (1973).

A EMERGÊNCIA DE ECOLOGISTAS de sua relativa obscuridade anterior marca um ponto decisivo em nossas comunidades científicas. Mas sua mensagem está sendo distorcida e mal utilizada. Um movimento superficial, porém consideravelmente poderoso no presente, e um movimento profundo, porém menos influente, competem por nossa atenção. Farei a seguir um esforço para caracterizar os dois.

I. O movimento de Ecologia superficial:
Luta contra poluição e esgotamento de recursos.
Objetivo central: a saúde e afluência de pessoas nos países desenvolvidos.

II. O movimento de Ecologia profunda:
1. Rejeição da imagem de “homem no meio ambiente” em favor da imagem relacional, de campo total. Organismos como nós na rede biosférica ou campo de relações intrínsecas. Uma relação intrínseca entre duas coisas A e B é tal que a relação pertence às definições das constituições básicas de A e B, assim, na ausência da relação, A e B não são mais as mesmas coisas. O campo total não se dissolve no conceito de “homem no meio ambiente”, mas sim, em todo conceito compacto de “objeto-no-meio”- exceto quando se trata de um nível de comunicação preliminar ou superficial.

2. Igualitarismo-biosférico-em-princípio. A cláusula "em princípio" é inserida porque qualquer práxis realística exige alguma morte, exploração e opressão. O ecologista de campo adquire um profundo respeito, ou até mesmo veneração, pelos modos e formas de vida. Ele alcança uma compreensão interior, um tipo de entendimento que os outros reservam para seus próximos e para os membros da raça humana e para uma seção estreita de modos e formas de vida. Para o ecologista de campo, o direito igual de viver e desabrochar é um valor axiomático intuitivamente claro e óbvio. Sua restrição aos humanos é um antropocentrismo com efeitos prejudiciais na qualidade de vida dos próprios humanos. A qualidade depende, em parte, do profundo prazer e satisfação que recebemos da pareceria íntima com outras formas de vida. A tentativa de ignorar nossa dependência e estabelecer um papel de mestre-escravo contribuiu para a alienação do homem de si mesmo. O igualitarismo ecológico implica na reinterpretação de variáveis de pesquisas futuras, "nível de populosidade", de um modo que a populosidade mamífera geral e a perda de igualdade vital é considerada seriamente, e não apenas a populosidade humana. (Pesquisas sobre a alta demanda de espaço livre de certos mamíferos sugeriram, incidentalmente, que os teóricos do urbanismo humano subestimaram, em grande parte, as necessidades humanas de espaço para viver. Sintomas comportamentais da alta populosidade, como neuroses, agressividade, perda de tradições, são, em grande parte, as mesmas entre os mamíferos).

3. Princípios de Diversidade e Simbiose. A Diversidade aumenta as potencialidades de sobrevivência, as chances de novos modos de vida, a riqueza de formas. E a tão falada disputa pela vida, e a sobrevivência dos mais aptos, deveria ser interpretada no sentido da habilidade de coexistir e cooperar em relacionamentos complexos, em vez da habilidade de matar, explorar e oprimir. "Viva e deixe viver" é um princípio ecológico mais poderoso do que "Ou você ou eu". Este tende a reduzir a multiplicidade de tipos de formas de vida, e também cria a destruição dentro de comunidades da mesma espécie. Portanto, atitudes ecologicamente inspiradas favorecem a diversidade de formas de vida humana, de culturas, de ocupações e economias. Elas dão suporte à luta contra a invasão e dominação econômica e cultural, bem como a militar, e são opostas à aniquilação de focas e baleias tanto quanto a de culturas e tribos humanas.

4. Postura anti-classes. A diversidade de modos de vida humanos se deve em parte à exploração e opressão (intencional ou não) por parte de certos grupos. O explorador vive diferentemente do explorado, porém ambos são afetados negativamente em seus potenciais de auto-realização. O princípio da diversidade não cobre diferenças devidas meramente a certas atitudes ou comportamentos restringidos ou bloqueadas à força. Os princípios de igualitarismo ecológico e de simbiose apóiam a mesma postura anticlasses. A atitude ecológica favorece a extensão de todos os três princípios a quaisquer conflitos de grupo, incluindo os atuais conflitos entre nações desenvolvidas e aquelas em desenvolvimento. Os três princípios também favorecem a extrema precaução em relação a qualquer plano geral para o futuro, exceto aqueles que consistirem em grandes, ou em alargamento, diversidades sem classe.

5. Luta contra poluição e esgotamento de recursos. Nesta luta os ecologistas encontraram partidários poderosos, porém algumas vezes em detrimento de seu alcance total. Isto acontece quando a atenção é focada na poluição e esgotamento de recursos ao invés de dar-se a devida importância aos outros pontos, ou quando são implementados projetos que reduzem a poluição mas aumentam males de outros tipos. Portanto, se o custo das necessidades vitais aumenta por causa da instalação de dispositivos antipoluição, as diferenças de classes aumentam também. Uma ética de responsabilidade implica que o ecologista sirva ao movimento ecológico profundo e não superficial. Quer dizer, não apenas o item cinco, mas todos os sete itens devem ser considerados juntos.
Os ecologistas são informantes insubstituíveis em qualquer sociedade, não importando sua tendência política. Quando bem organizados, eles têm o poder de rejeitar serviços nos quais estejam submetidos a instituições ou a planejadores com objetivos ecológicos limitados. Como ocorre atualmente, algumas vezes os ecologistas servem a mestres que deliberadamente ignoram as perspectivas mais amplas.

6. Complexidade, não complicação. A teoria dos ecossistemas contém uma importante distinção entre o que é complicado sem nenhuma Gestalt ou princípios unificadores – podemos pensar sobre a procura de nosso caminho em uma cidade caótica – e o que é complexo. Uma multiplicidade de fatores mais ou menos interagentes e legítimos podem operar juntos para formar uma unidade, um sistema. Fazemos um sapato ou usamos um mapa ou integramos uma variedade de atividades em um padrão de trabalho diário. Organismos, formas de vida, e interações na biosfera em geral, exibem uma complexidade de um nível tão incrivelmente alto que trazem cor à perspectiva geral dos ecologistas. Tal complexidade faz com que o pensamento em termos de vastos sistemas seja inevitável. Também traz uma percepção fixa e aguçada da ignorância humana profunda sobre as relações biosféricas, e, portanto, de seus efeitos perturbadores.
Aplicado aos seres humanos, o princípio da complexidade-não-complicação favorece a divisão do trabalho, e não a fragmentação do mesmo. Favorece ações integradas nas quais a pessoa inteira é ativa, e não meras reações. Favorece economias complexas, e variedades integradas de modos de viver. (Combinações de atividade industrial e agrícola, de trabalho intelectual e manual, de ocupações especializadas e não-especializadas, de atividade urbana e não-urbana, de trabalho na cidade e recreação na natureza com recreação na cidade e trabalho na natureza...).
Favorece a tecnologia suave e a "pesquisa futura suave", menos prognose, mais clareza de possibilidades. Mais sensibilidade em relação à continuidade e tradições vivas, e mais importante, em relação ao nosso estado de ignorância.
A implantação de políticas ecologicamente responsáveis requer, neste século, um crescimento exponencial de habilidade técnica e invenção – mas em novas direções, direções que hoje não são constante e liberalmente apoiadas pela política dos órgãos de pesquisa nos estados de nossos países.

7. Autonomia local e descentralização. A vulnerabilidade de uma forma de vida é aproximadamente proporcional ao peso das influências distantes, vindas de fora da região local na qual essa forma obteve um equilíbrio ecológico. Isso dá apoio aos nossos esforços de fortalecer a autonomia governamental local bem como a auto-suficiência mental e material. Mas esses esforços pressupõem um ímpeto em direção à descentralização. Problemas de poluição, incluindo aqueles de poluição térmica e recirculação de materiais, também nos conduzem nessa direção, porque um aumento da autonomia local, se pudermos manter constantes outros fatores, reduz o consumo de energia. (Compare uma localidade aproximadamente auto-suficiente com uma que requer importação de alimentos, materiais para construção, combustível e mão de obra especializada de outros continentes. A primeira pode usar
[1] somente cinco por cento da energia utilizada pela segunda).
A autonomia local é fortalecida pela redução no número de ligações nas cadeias hierárquicas de decisão. (Por exemplo, uma cadeia que consiste de um conselho local, conselho municipal, estadual, federal, e de instituições superiores e globais pode ser reduzida a uma composta de um conselho local, um nacional, e uma instituição global) Até mesmo se uma decisão seguir uma ordem majoritária a cada passo, muitos interesses locais podem ser descartados ao longo da linha, se ela for muito longa.
Resumindo então, a primeira coisa que se deveria ter em mente é que as normas e tendências do movimento de Ecologia Profunda não são derivadas da ecologia por lógica ou indução. O conhecimento ecológico e o estilo de vida do ecologista de campo sugeriram, inspiraram e fortaleceram as perspectivas do movimento da Ecologia Profunda. Muitas das formulações contidas nos sete pontos pesquisados acima são generalizações bastantes vagas, apenas sustentáveis se direcionadas de forma mais precisa em certas direções. Porém, no mundo inteiro a inspiração proveniente da ecologia tem mostrado convergências notáveis. A pesquisa não tem a pretensão de ser mais do que uma das possíveis codificações condensadas dessas convergências.
Em segundo lugar, deveria ser completamente apreciado o fato de que os princípios do movimento de Ecologia Profunda são clara e obrigatoriamente normativos. Eles expressam um sistema de prioridade de valor baseado apenas em parte nos resultados (ou ausência de resultados, cf. item seis) da pesquisa científica. Hoje em dia, os ecologistas tentam influenciar as corporações politicamente ativas em grande parte através de ameaças, através de previsões com relação a poluentes e esgotamento de recursos, sabendo que os agentes políticos aceitam pelo menos certas normas mínimas relativas à saúde. Mas é claro que há um vasto número de pessoas em todos os países, e até mesmo um número considerável de pessoas no poder, que aceitam como válidas as normas mais abrangentes e os valores característicos do movimento da Ecologia Profunda. Há potenciais políticos nesse movimento que não deveriam ser negligenciados e que tem pouco a ver com poluição e esgotamento de recursos. No planejamento de futuros possíveis, as normas deveriam ser livremente usadas e elaboradas. Em terceiro lugar, na medida em que movimentos ecológicos merecem nossa atenção, eles são de caráter ecofilosóficos mais do que ecológicos. A ecologia é uma ciência especial que faz uso de métodos científicos. A filosofia é o fórum de debate mais geral dos fundamentos, tanto descritivos como prescritivos, e a filosofia política é uma de suas subseções. Por Ecosofia eu quero dizer uma filosofia de harmonia ou equilíbrio ecológico. Uma filosofia é um saber abertamente normativo que contém ambas as normas, regras, postulados, pronunciamentos de valor prioritário e hipóteses relativas ao estado de acontecimentos em nosso universo. Sabedoria é o saber político, a prescrição, não apenas a descrição e a previsão científica.
Os detalhes de uma ecosofia demonstrarão muitas variações devidas a diferenças significantes não apenas aos “fatos” da poluição, recursos, população, etc., mas também a prioridades de valor. Hoje, porém, os sete pontos listados provêem um método de trabalho unificado para os sistemas ecosóficos.
Na teoria dos sistemas em geral, os sistemas são principalmente concebidos em termos da causalidade ou funcionalidade de itens interagentes ou inter-relacionados. Uma ecosofia, no entanto, é mais parecida com um sistema do tipo construído por Aristóteles ou Spinoza. É expresso verbalmente como um conjunto de proposições com uma variedade de funções, descritivas e prescritivas. A relação básica é aquela entre subconjuntos de premissas e subconjuntos de conclusões, ou seja, a relação derivativa.As noções relevantes da derivação devem ser classificadas de acordo com o rigor, com as deduções lógicas e matemáticas acima de tudo, mas também de acordo com o quanto são implicitamente inquestionáveis. Uma exposição de uma ecosofia deve ser considerada apenas moderadamente precisa, considerando o vasto escopo do material normativo e ecológico relevante (social, político, ético). No momento, a ecosofia deve fazer proveito do uso de modelos de sistemas, aproximações grosseiras das sistematizações globais. É o caráter global, e não a precisão no detalhe, que distingue a ecosofia. Ela articula e integra os esforços de um grupo ecológico ideal, um grupo constituído não apenas de cientistas de uma grande variedade e disciplinas, mas também de estudantes de política e de atuantes políticos.
Sob o nome de ecologismo, várias divergências do movimento profundo tem sido priorizadas com um stress unilateral sobre poluição e esgotamento de recursos, mas também com uma negligência das grandes diferenças entre países sub e super desenvolvidos em favor de uma abordagem global vaga. A abordagem global é essencial, mas as diferenças regionais devem determinar em grande parte as políticas para os próximos anos.



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BIBLIOGRAFIA:
NAESS, Arne: THE SHALLOW AND THE DEEP, LONG RANGE ECOLOGY MOVEMENTS – A SUMMARY. APUD: LÜTKENHAUS, Paulo Henrique Marques.

Notas:
[1] Nota do tradutor: Aqui o verbo usar tem o sentido de necessitar.