segunda-feira, 3 de outubro de 2011

“Posse” responsável. Ou melhor: TUTELA RESPONSÁVEL


Tem-se observado, já há alguns anos, o surgimento de um número cada vez maior de ONGs que acolhem animais abandonados nas ruas, dando-lhes cuidados e, em seguida, disponibilizando-os para adoção. As pessoas que criam essas organizações têm um bom coração, uma postura ética de se preocupar com seres indefesos, reféns da indiferença e objetificação proporcionadas pelos seres humanos. Mas, da mesma forma que essas ONGs proliferam, o mesmo ocorre com o número de animais abandonados nas ruas todos os dias. Então, qual é a solução para este problema?
Normalmente, a aparência de um animal filhote, seja ele um gato, um cachorro ou de qualquer outra espécie, fascina os seres humanos. Nesta idade, eles chegam até mesmo a parecer de brinquedo, como se fossem “bichinhos de pelúcia”. As crianças não os tiram do colo, não cansam de afagar seus pelos, de brincar com seus novos amiguinhos. Porém, essas “fofuras” acabam crescendo e bem rapidamente. Já adultos, os animais começam a apresentar um comportamento mais tranqüilo, mais quieto, já não gostam tanto de brincar e já não se parecem mais com “bichinhos de pelúcia”. É justamente a partir daí que os seres humanos, considerados seus “donos” (trocarei esta palavra, daqui em diante, para TUTORES, devido ao fato de que nenhum ser vivo é dono de outro), começam a ser mais displicentes: levam-nos menos vezes para passear, deixam-nos mais dias sem dar banho, por vezes se esquecem de suas vacinas e cuidados veterinários, bem como, até mesmo, de trocar sua água ou, ainda, de colocar comida para eles. Quando chega a época de férias e querem viajar, começam a achar que os animais constituem um empecilho, um entrave, um PROBLEMA!!!
Oras, vocês já imaginaram se, quando fôssemos bebê, nossos pais nos tratassem com todo amor e carinho e, quando crescêssemos, simplesmente nos considerassem um entrave, um problema em suas vidas e, por isso, simplesmente nos abandonassem nas ruas, tal qual nós, seres humanos, estamos fazendo com os animais???
O que está errado na história acima relatada é justamente o tipo de relação que os seres humanos vêm mantendo com os animais. Uma relação de objetificação, na qual os seres humanos querem, simplesmente, sanar suas necessidades emocionais/afetivas, remediar imediatamente sua solidão e carência através do USO – sim, isso mesmo, USO! – de outros seres vivos (os animais) que, é bom lembrar, NÃO DEPENDEM DE NÓS, SERES HUMANOS, PARA SEREM FELIZES OU SE SENTIREM PLENOS. Desse modo, OS ANIMAIS SÃO RELEGADOS, PELOS SERES HUMANOS, À MERA CONDIÇÃO DE ESCRAVOS.
É bastante fácil corroborar o que acabei de citar no último parágrafo, o ser humano, desde os tempos mais remotos, só pretende LEVAR ALGUM TIPO DE VANTAGEM em sua relação com outros seres (e até com o Planeta Terra!!!). Um exemplo disso é a relação que o homem iniciou com os lobos. Os lobos passaram a ajudar os seres humanos em suas caçadas, em épocas primitivas, e, em troca, ganhavam pedaços da caça como recompensa. No entanto, os maiores pedaços permaneciam com o homem. Ou seja, desde os primeiros momentos, a relação homem/animais é desigual e desvantajosa para os últimos. Hoje em dia, esta relação de interesse dos seres humanos, pode ser notada tanto com os animais domésticos (interesses afetivos/emocionais, tais como suprir carências ou até mesmo a solidão), quanto com outros tipos de animais usados para o trabalho (como cavalos, burros, mulas e jegues, utilizados para puxarem carroças pesadas), para a “diversão” (animais utilizados antieticamente em circos, festivais, touradas, dentre outras atividades que só lhe trazem prejuízos físicos, psíquicos e, até mesmo, a morte, muitas vezes os expondo ao ridículo, submetendo-lhes ao estresse de uma multidão que os perturba, ou até agride, em nome de uma pseudo “diversão”, como se os animais fossem uma espécie de bobo da corte, de animador de platéias, ou mesmo de gladiador romano), para testes laboratoriais (e nesse quesito incluem-se todos as espécies que o leitor possa imaginar, espécies que serão submetidas aos mais diversos, dolorosos, atrozes e cruéis testes que, para ser bem científico, muitas vezes não provam nada, em razão da grande diferença existente entre o organismo humano e o animal), dentre outros.
Para que nossa relação com os animais seja melhorada, devemos ensinar nossas crianças, desde bem pequenas, a respeitar os animais, a defender seus direitos radicalmente, a amar-lhes como amamos a nós mesmos, a não percebê-los como meros “objetos”. É necessário também, no que tange ao abandono de animais domésticos, tais como cães e gatos, que nós, adultos, não adotemos o hábito de dar para uma criança um bichinho como se fosse um “presente”. As crianças não têm responsabilidades e, certamente, não cuidarão dos animais tal como precisam. Essa tarefa acabará sendo dos pais da criança que, somente se decidirem cuidar do animalzinho com toda a atenção, por toda sua vida, devem adotá-lo. Os pais também precisam lembrar que os animais têm necessidades, fazem xixi e coco, que exalam cheiros fortes, além do fato de os animais precisarem de abrigos seguros, quando aqueles que o tutelam forem viajar ou, então, que viajem junto deles. Os animais precisam também de cuidados veterinários por toda sua vida (do mesmo modo que os seres humanos precisam tomar suas vacinas e ir ao médico). Em suma, da mesma maneira que um filho necessita de todo cuidado e atenção, além de não ser abandonado nas ruas, assim também os animais devem ser tratados. Eles deixaram seu verdadeiro lar, a natureza selvagem, justamente por culpa dos seres humanos, que os trouxeram para as “selvas de pedra”. Portanto, uma vez que os animais se encontram nesses lugares INÓSPITOS E SEM RECURSOS, devem ser responsavelmente tutelados e ter seus direitos respeitados, assegurados.
Atualmente, têm-se debatido a questão da necessidade de esterilização dos animais domésticos para evitar sua superpopulação nas ruas. Tal procedimento pode até ser pertinente, mas em nada adiantará caso os seres humanos não mudem, prioritariamente, seu modo de se relacionar com os animais, não os percebendo como meros objetos. É HORA DE MUDARMOS NOSSO PONTO DE VISTA, DE TRATARMOS OS ANIMAIS COMO NOSSOS FILHOS/IRMÃOS. Conclusivamente, gostaria de citar este trecho significativo da carta do Chefe Seatle ao governo norte americano, escrita em 1854:
“... Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir. Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.” (CHEFE SEATLE, 1854)
Escrito por Paulo Lütkenhaus em 03/10/2011, Belo Horizonte, Brasil.