segunda-feira, 7 de maio de 2012

PORQUE TRATAMOS OS ANIMAIS COM INDIFERENÇA


Desde dezembro de 2003, após eu ter lido o livro Vida Ética, do filósofo Peter Singer, tornei-me um Homo sapiens de hábitos vegetarianos. É fato que, mesmo quando eu era criança, já amava profundamente os animais, porém após eu ter lido o referido livro percebi que é necessário muito mais que amor pelos nossos irmãos animais; é necessário respeito! Desde então me tornei um ativista pró-animais e seus direitos. No começo foi meio difícil. Piadinhas, comentários errôneos de que eu deveria me preocupar com os seres humanos, ao invés dos animais, dentre outros dizeres desestimuladores eram comuns. Se eu não possuísse uma personalidade bem formada e uma mente privilegiada pelo intelecto, em detrimento de sentimentos superficiais, teria desistido de minha nova empreitada, mas não era este o caso.

De lá para cá foram muitas petições on-line das quais participei, nacionais e internacionais, documentários aos quais assisti, textos que li, sites de ONGs pró-animais nacionais e internacionais que visitei, conversas com ativistas que tive, etc. Dentre essas atividades, tive oportunidade de participar também de algumas manifestações nas ruas. Foi então que pude perceber o que havia nos “bastidores” dos movimentos. Encontrei muitas senhoras que compareciam às manifestações acompanhadas de seus cãezinhos de estimação de alguma raça, mas que, quando indagadas a respeito de seus hábitos alimentares, por exemplo, revelavam não ser vegetarianas. Ou, ainda, usavam bolsas, ou algum outro acessório, de couro, ou mesmo cosméticos de empresas que geralmente realizam testes cruéis nos animais. Ou seja, era nítida a defesa de alguns tipos de animais (os considerados “de estimação”) em detrimento de outros que eram relegados à condição de OBJETOS!

Por que esse tipo de tratamento diferenciado é direcionado por nós, animais humanos, aos nossos irmãos animais não-humanos? Bem, eu pude encontrar um pouco de reflexão sobre esse tipo de questionamento em um texto sugerido por uma grande amiga minha que atua na ONG Gato Negro, aqui de Belo Horizonte/MG. No referido texto, a autora sugere que nós, animais humanos, acabamos “humanizando” certos tipos de animais, em geral aqueles com os quais desenvolvemos alguma estima ou nos quais reconhecemos algum tipo de característica parecida com as características humanas. Por outro lado, os animais com os quais não convivemos tão próximos, desenvolvendo algum tipo de empatia, ou que não apresentam alguma característica parecida com as características humanas seriam relegados à uma condição de OBJETOS, só servindo para nos fornecer carne, couro, leite, entretenimento, tração de carroças, serviços, etc.

Quando li o supracitado texto percebi que ele apontava para um fato importante: o critério de classificação dos animais conforme sua PROXIMIDADE (real ou subjetiva) com os Homo sapiens. Ok, isso é fácil de compreender. Mas por que agimos dessa maneira? É justamente aí que sugiro uma determinada reflexão. Desde o advento do Renascimento, passando pelo surgimento do capitalismo aventureiro (ainda na Idade Média), sua posterior consolidação durante as Revoluções Industriais e, décadas mais tarde, a chegada dos tempos contemporâneos é possível observar o SURGIMENTO E FORTALECIMENTO DO ANTROPOCENTRISMO. O antropocentrismo nada mais é que uma forma de percepção da vida baseada no ser humano. É como se o ser humano fosse o queridinho do universo, o umbigo de “Deus”, como se tudo que existisse no planeta tivesse de ser usado pelo e para o ser humano, é como se tudo que existe só existisse porque o ser humano existe e precisa.

No entanto, essa percepção que está fortemente impregnada nos corações e mentes humanas está completamente equivocada. O planeta Terra possui diversos tipos de animais, plantas, rochas, sistemas aquáticos e solos. Tudo que existe está interligado e é interdependente. Todos dependem de todos. Tudo depende de tudo. É como se a Terra fosse um grande corpo e tudo que nela existe fossem suas células. Cada coisa tem uma funcionalidade que, em verdade, só funciona quando interage com as demais. Ou seja, o verdadeiro valor de cada um dos elementos que compõem o nosso planeta só pode ser encontrado quando aquele elemento está em contato com os demais, possuindo sua importância na TEIA DA VIDA. Portanto, não existe um elemento (seja ele qual for, inclusive o ser humano) que possua valor maior que o outro, pois todos os elementos dependem uns dos outros. O ser humano depende de tudo que lhe cerca da mesma forma que todos os outros seres do planeta Terra ao seu redor também dependem.

Esse tipo de percepção que questiona e critica o antropocentrismo é denominada ECOLOGIA PROFUNDA (http://www.lutkenhaus.blogspot.com.br/2007/05/ecologia-profunda-arne-naess.html), uma corrente filosófica criada pelo filósofo norueguês Arne Naess, na década de 1970. Obviamente, como em todos os demais conhecimentos humanos, Arne Naess possuía referências anteriores que lhe serviram de base à criação de sua filosofia, tais como o Taoísmo, o Budismo e o modo de vida dos povos indígenas tradicionais da América do Norte. Uma demonstração desse tipo de percepção que os indígenas já possuíam pode ser encontrada na carta redigida pelo cacique Seattle em 1855 (http://www.lutkenhaus.blogspot.com.br/2007/05/carta-do-cacique-seatle-1854.html), em resposta à proposta de compra das terras indígenas de seu povo pelo então governo americano Francis Pierce.

Não é necessário ser um gênio para perceber quais tem sido as conseqüências ao nosso Planeta geradas pela percepção antropocêntrica. Aquecimento global, acúmulo de lixo, poluição atmosférica, visual, sonora, nuclear, de rios e mares, contaminação de lençóis freáticos, crise de abastecimento de água, uso de agrotóxicos em alimentos, desflorestamentos, mineração, queimadas, tráfico e extinção de espécies animais e vegetais, desrespeito à vida e aos direitos dos animais são apenas alguns exemplos das conseqüências geradas pela percepção míope do antropocentrismo.

Portanto, se nós, ativistas em prol dos animais não-humanos, quisermos realmente mudar o cenário de desrespeito, crueldade e discriminação pelos quais eles têm passado, teremos de começar a semear, paralelamente às ações emergenciais que tomamos (tais como resgates, castração, feiras de adoção, petições, manifestos – ações cuja necessidade tenho profunda ciência), um novo tipo de percepção à nossa sociedade, principalmente às nossas crianças. Uma percepção ECOLÓGICA PROFUNDA de que cada um de nós: animal humano ou não-humano, plantas, rios, mares, rochas, solos, enfim, TUDO, estamos interconectados e dependemos profundamente uns dos outros. TODOS somos importantes no Planeta Terra. É como se cada um de nós, aproveitando a metáfora já proposta pelo físico Fritjof Capra, fôssemos um pequenino fio de uma teia gigante, a TEIA DA VIDA (http://livrosdamara.pbworks.com/f/Fritjof%2520Capra%2520-%2520A%2520teia%2520da%2520vida.pdf). Dessa maneira, estenderemos progressivamente o respeito humano não apenas aos animais (considerados por seus defensores seres sencientes – que sentem dor, fome, medo, frio, solidão, etc), mas a TODOS os seres que compõem nosso maravilhoso planeta. Até porque, se os animais humanos continuarem adotando esse parâmetro de “seres sencientes” para defender os animais, continuarão defendendo-os simplesmente por ver neles algum tipo de identificação consigo próprios, e isto, além de perpetuar o antropocentrismo, perpetuaria também a não consecução da vitória na luta pelo verdadeiro respeito aos animais. Pensemos nisto!


Escrito por Paulo Henrique Marques Lütkenhaus em 07/05/2012.